Ela parou em frente à porta do quarto de sua mãe, receosa. E se ela alegasse que eram coisas de sua cabeça, como sempre fazia? Desde que seu pai morreu, passara todas as noites indo ao quarto da mãe, implorando para que a ouvisse, para que tentasse compreender o que o sonho significava, como ele sempre fazia.
Suspirou fundo, e bateu três vezes.
Segundos depois, ali estava ela, com seus cabelos em uma longa trança negra, e uma camisola de seda pomposa. Depois de observar sua aparência, a garota espiou o seu rosto. Sua expressão não era das melhores.
-O que faz aqui, Alice? - Perguntou, impaciente, enquanto punha o lampião em frente ao rosto da jovem.
-Tive o sonho de novo. - Respondeu, abaixando os olhos, culpada.
Sua mãe a observou por segundos que lhe pareceram décadas e finalmente soltou um suspiro.
- Eu já lhe expliquei que isto é tudo coisa de sua cabeça, mocinha. Agora volte para sua cama, e não esqueça de apagar a vela.
Sem falar nada mais, bateu a porta. A garota, cambaleou um pouco, e logo marchou lentamente até o seu quarto. Sentou-se à beira da cama e rezou baixinho, para que o sonho fosse embora, para que desistisse de enlouquecê-la. Enfim, deitou-se e caiu lentamente no sono.
-Alice, o que faz, parada? - Disse o coelho branco, com seus óculos caindo um pouco tortos ao seu focinho. - Ande, menina, estamos atrasados!
E com sua última palavra, a menina foi engolida pela escuridão, rodopiando no que parecia ser um buraco sem fim, em um negrume denso como os olhos do animal que a empurrara.


